Arquivo da categoria: literatura

Made in Japan

MADE IN JAPAN_Este é um best seller mundial publicado em 1986 e escrito pelo falecido Akio Morita, cofundador e ex-presidente da SONY. É um livro autobiográfico que conta a sua vida e a sua filosofia por trás de uma das companhias japonesas mais respeitadas no mundo e como ela mudou a percepção do mundo em relação aos produtos eletrônicos japoneses. Houve um tempo em que produto japonês era sinônimo de baixa qualidade, acredite se quiser, mas isso foi lá pelos anos 50 e começo dos 60.

Neste livro, é possível entender a sociedade e a cultura japonesa do ponto de vista do autor e como um país que tem apenas 20% do seu território habitável e cultivável e quase sem nenhum recurso natural conseguiu tornar-se um gigante econômico, com o desenvolvimento tecnológico exemplificado pelos esforços da Sony de criar produtos cada vez menores, utilizando menos recursos (matéria prima) possível.

23 anos depois da primeira publicação, ainda é  um livro muito atual pelo seu conteúdo visionário. Pensando na crise financeira recente, não poderia ser mais atual, por sinal, pois nele contém possíveis respostas para um modelo mais saudável de existênica econômica.

O livro foi originalmente escrito em inglês, pois Morita quis dirigir para as sociedades ocidentais (principalmente Estados Unidos) os seus pensamentos. Embora ele seja japonês, a versão no idioma dele que eu li, é uma tradução do texto original em inglês. Existe também uma versão em português, (esgotada, mas pode ser que exista em algum sebo).

Além de ter sido visionário, Akio Morita era um fofo, pelo visto. Olha o carinho que o Michael tinha por ele… (fita com mensagem do Michael Jackson para o Morita se recuperar da doença que acabou matando-o)

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Pele Negra, Máscaras Brancas

capa de Pele Negra, Máscaras Brancas

capa de Pele Negra, Máscaras Brancas

As vezes, entender um artista contemporâneo requer certas leituras. Principalmente quando se trata de um como o Yinka Shonibare (post de 2 de outubro), voraz pesquisador de assuntos históricos e que tem como sua literatura formativa “Heart of Darkness” de Joseph Conrad, “Orientalism” de Edward Said e “Pele Negra, Máscaras Brancas” de Frantz Fanon, além dos clássicos de Shakespeare e Dickens.

Acabo de ler o de Fanon. Esse livro foi escrito em 1952 e causou um enorme impacto quando foi publicado. Tornou-se uma grande referência para os movimentos anticolonialistas no mundo e também para os movimentos Black Power, Black Panthers e outros movimentos civis americanos que viriam a surgir nos anos 60.

Frantz Fanon nasceu na Martinica, ilha do Caribe que pertence à França, em 1925. Serviu o exército francês na 2ª Guerra Mundial e depois foi estudar medicina em Lyon, especializando-se em psquiatria. Além de medicina, estudou também filosofia e literatura, devorando as obras de Hegel, Lenin, Kierkegaard, Heidegger e Sartre, referências que aparecem em abundância no livro. Depois dos estudos, Fanon foi morar na Argélia e trabalhou como médico-chefe de uma clínica. Se engajou na luta pela independência da Argélia, participando da Frente de Libertação Nacional. Em 1961 descobriu que tinha contraído leucemia e escreveu seu outro célebre livro “Les Damnés de la Terre” (“Os condenados da terra”). Morreu precocemente no mesmo ano, um ano anterior à independência da Argélia.

Frantz Fanon escreveu “Pele Negra, Máscaras Brancas” quando ainda estava na França. Quando o grito de cólera pelo racismo que encontrou na metrópole já havia se transformado em reflexões e análises. Fanon fala sobre a relação entre o colonizador (branco) e o colonizado (negro), a psicologia do colonizado, e finalmente desmistifica o complexo de inferioridade e o fator de dependência do colonizado para que se quebre este círculo vicioso e se abra o olho para um mundo de originalidade e força essencial do africano (ou do colonizado), tendo como inspiração o movimento poético da Négritude de Aimé Césaire (nascido na Martinica como Fanon), Léopold Sédar Senghor (que depois se tornou presidente do Senegal) e Léon Damas dos anos 30. O livro é forte, muito forte. A crítica é tão agressivamente direcionada ao branco que fala em linguagem de criança quando se dirige ao outro (o negro) quanto ao negro que veste a máscara branca para poder existir para o outro (o branco). É claro que se não houvesse a opressão do colonizador, ou do branco, nunca haveria a necessidade da máscara (afinal, foram cinco séculos de colonização e mais de 10 milhões de africanos escravizados, espalhados a força, brutalizados e massacrados), mas Fanon combate de frente essa atitude e com toda a sua força, todo o seu intelecto e toda a sua sensibilidade, deseja que o mundo caminhe em direção a uma nova humanidade.

Assunto defasado em épocas de Obama? Não. Não quando se vê hoje as mesmas atitudes que Fanon condenava 50 anos atrás. O branco não deixou de ser o colonizador e o negro tampouco deixou de ser o colonizado. Ontem numa loja de tênis no centro de São Paulo, onde só tem vendedores jovens, bem jovens, um deles grita em voz bem alta, do meio da loja lá pro fundo para um outro vendedor, “ô neguinho, vc chegou, neguinho! Aí, bate aqui, neguinho!” E o colonizado aceita o apelido e faz o cumprimento, com um sorriso amargo, apesar dos cinquenta anos que se seguiram depois da aparição de “Pele Negra, Máscaras Brancas”, da suposta democracia racial brasileira e, finalmente, do Obama. Essa cena não é nenhuma cena rara, onde as pessoas em volta se escandalizaram nem nada, é uma cena corriqueira, comum. O “branqueamento” das sociedades continua a existir de forma sutil e as vezes não tão sutil. A relação do colonizado com o colonizador se aplica nesses fenômenos corriqueiros, como apelidos. Neguinho, Nega, Japa… Aqueles que defendem o uso dizem que é carinhoso. Justificam-se também pelo fato dos próprios apelidados se auto-denominarem com esses nomes enclausuradores. Então, aqui se aplica a psicologia da máscara branca, pois se auto-denegrindo, o colonizado entra no time do colonizador, tornando-se aceito em seu grupo. Aceitando ser “Y a bon Banania”.

Talvez um presidente americano mulato, pardo, sem cor definida, como os manequins sem cabeça das instalações de Yinka Shonibare, sirva como símbolo de um mundo que já tomou a direção para uma nova humanidade, como tanto desejou Fanon, e que apenas ainda existem pessoas que não perceberam que o mundo mudou.

Hoje tem o último debate presidencial americano às 22h00. Eu vou assistir.