Yinka Shonibare MBE

HOW TO BLOW UP TWO HEADS AT ONCE, 2006      

 

 

 

 

 

 

HOW TO BLOW UP TWO HEADS AT ONCE, 2006

Que instalação mais instigante. Há várias camadas de simbolismos nessa imagem, mas a primeira que vem à cabeça é certamente a absurda idéia da garantia da paz mundial através do tal do “equilíbrio nuclear”.

 Yinka Shonibare é definitivamente um artista que me atrai. Ele é fruto de duas culturas, da Inglaterra, onde nasceu e da Nigéria, onde cresceu. Vive e trabalha em Londres e se considera verdadeiramente bicultural. A arte dele explora temas sobre raça, identidade, história e alienação através de uma estética complexa e rica em simbolismos.

Os códigos que ele usa são curiosos. Ele adora usar o estilo vitoriano inglês e o tecido “dito” africano, aquele multi-colorido e multi-estampado com padronagens típicas. Porém, esses códigos aparentemente decorativos são uma porta de entrada para uma leitura mais aprofundada do mundo pós-colonial. O tal tecido africano que ele usa é uma imitação do batik indonésio, criada na Holanda no século 19 e fabricada na Inglaterra para ser vendida na Indonésia, colônia holandesa na época. Quando viram que não encontravam consumidores lá, certamente por conta da altíssima qualidade do batik local tradicional, o tecido foi vendido a preço de banana na África ocidental. Até hoje esse tipo de tecido é fabricado largamente na Europa e usado intensamente pela população dessa parte da África, até que virou um símbolo de africanidade, sendo que na realidade é fruto do colonialismo europeu. Até que ponto estamos sujeitos a uma noção de autenticidade imposta? Essa questão também permeou toda a minha vida ao longo dos anos. Penso no que enfrentei e questionei, eu mesma, sendo multicultural como Shonibare. O que seria “o meu lado japonês” que as pessoas tentavam encontrar na minha personalidade? E quando pulavam de espanto quando eu abria a boca para falar, no Japão, onde era considerada “gaijin“? É engraçado como a sua estética já define praticamente o que esperam de você e as pessoas não estão muito preparadas para que essa expectativa seja quebrada. Nesse sentido, o mundo miscigenado, mestiço, é bem mais comfortável. Talvez isso explique o comforto que o Brasil me proporciona, a falta de cobrança de uma identidade definida que São Paulo (a cidade mais neutra possível) me dá.

SCRAMBLE FOR AFRICA, 2003

Isso talvez explique a cor da pele dos manequins sem cabeça que Shonibare sempre usa em suas instalações. Ela é sempre de cor parda. Não definida. Misturada. Isso me dá a impressão de que o artista guarda uma esperança de que a biculturalidade, ou seja a dualidade um dia se funda e que o mundo transcenda questões até mesmo de identidade. Eu também acredito nessa volta ao estado fundido, andrógino, que deve ser o destino da humanidade lá na frente, bem longe ainda.

MOBILITY (detalhe), 2005

MOBILITY (detalhe), 2005

Yinka Shonibare, numa entrevista, conta que quando era estudante de arte em Londres, fazia um trabalho com elementos da arte russa e foi criticado por uma professora que dizia “você é africano, deveria fazer arte sobre as suas origens”. Por que devemos sempre nos lembrar de que viemos de algum país? Por que não podemos simplesmente exisitir enquanto espíritos livres e originais, sem essa imposição do apego às origens? Acho que quando Shonibare subverte a noção de identidade, como faz em todas as suas obras, mas bem especificamente em obras como “Dorian Gray” ou “Diary of a Victorian Dandy, retratando a si mesmo nos papéis que normalmente são reservados para brancos, está certamente confrontando com essa falsa autenticidade, essa identidade imposta.

DIARY OF A VICTORIAN DANDY, 1998

DORIAN GRAY (detalhe), 2001

DORIAN GRAY (detalhe), 2001

Recentemente Yinka Shonibare recebeu o título de MBE, Member of the British Empire. Nesse episódio também o artista agiu em consonância com a sua arte, com contradição. Todo mundo achava que ele certamente iria rejeitar o título, assim como fizeram muitos outros artistas e pensadores, pela idéia do imperialismo e do “sistema” que é atribuída ao título. Ele não só aceitou como agora faz questão de sempre usar o MBE no seu nome. As contradições e a quebra de expectativas são sempre ótimas ferramentas para dar uma chacoalhada na sociedade.

Yinka Shonibare MBE

Yinka Shonibare MBE

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