Akira Kurosawa

O mais famoso de todos os cineastas japoneses responsável pela popularização do cinema de seu país, nasceu no dia 23 de março de 1910 em Omori, Tóquio. Quando jovem, Kurosawa pretendia ser pintor, mas conseguiu apenas reconhecimento como ilustrador de revistas e fazendo anúncios publicitários.

Kurosawa começou como assistente de produção de Kajiro Yamamoto e roteirista. Apaixonado pela literatura soviética, principalmente pelas obras de Tolstoi, Turgueniev e Dostoievski, e por cinema, influenciado pelo seu irmão mais velho, um benshi (narrador de filmes mudos), Kurosawa fez filmes deslumbrantes esteticamente e de grande profundidade psicológica em seus personagens. Seu primeiro grande sucesso foi “Rashomon” (1950), que recebeu o prêmio máximo no Festival de Veneza.

Após um período difícil em sua vida, sem o reconhecimento dentro de seu próprio país e em que chegou até a tentar suicídio, Kurosawa contou com o apoio de jovens diretores norte-americanos que admiravam suas obras como Coppola, Spielberg, George Lucas e Martin Scorsese, que o ajudaram a conseguir financiamento para seus filmes. Em 1989, Kurosawa recebeu um Oscar Especial da Academia pela sua carreira.

O diretor morreu num domingo de setembro de 1998. Sempre disse que queria acabar no set de filmagem. Faleceu aos 88 anos, em casa.

Principais filmes

“Sugata Sanshiro” (1940)
“Rashomon” (1950)
“Os Sete Samurais” (1954)
“Trono Manchado de Sangue” (1957)
“A Fortaleza Escondida” (1958)
“Yojimbo” (1961)
“Sanjuro” (1962)
“Céu e Inferno” (1963)
“O Barba Ruiva” (1965)
“Dodes’ka-den” (1970)
“Dersu Uzala” (1975)
“Ran” (1985)
“Sonhos de Kurosawa” (1990)
“Rapsódia em Agosto” (1991)
“Madadayo” (1993)

Apresento aqui dois dos meus favoritos, “Dodes’ka-den” e “O Barba Ruiva”.

1. “Dodes’ka-den” (1970)


Primeiro filme em cores de Kurosawa, “Dodes’ka-den” baseou-se em “A Cidade Sem Estações”, uma coletânea de contos de Shugoro Yamamoto. O filme não tem um enredo propriamente dito. Trata-se de uma série de episódios sobre as vidas de favelados unidos por sua convivência num dia-a-dia duro e desesperadoramente triste. o título do filme se refere ao barulho feito pelo trem imaginário do personagem Rokkuchan, um garoto que corre pelas ruas na ilusão de que está conduzindo um bonde.

Assim como ele, todos os outros personagens do filme suportam as condições miseráveis em que vivem através de fantasias impossíveis. Nesses sonhos, eles colocam o que a vida poderia e deveria ser. Porém, eles não podem fazer mais nada, além de imaginar. O grupo é liderado por Tamba, um velho artesão e um espírito bondoso que compreende e perdoa tudo. Um personagem que “amadureceu como um sujeito bom e honesto ao longo de sua vida e alcançou a posição do homem mais velho, maduro e experiente”, segundo o diretor.
Diferentemente dos filmes anteriores de Kurosawa, em “Dodes’ka-den” não aparece mais uma figura dominante, um líder no qual se centraliza o filme, que consegue superar o insuperável. Neste filme Kurosawa abandonou a glorificação de indivíduos supremos e focalizou a coragem e a resistência dos fracos e esquecidos. A fantasia e a ilusão são os únicos meios que os personagens têm de suportar a realidade. A cura para todo o mal está além de suas forças. Para o nostálgico Kurosawa, a imaginação como valor em si oferece momentos moralmente superiores e mais autênticos que os fatos brutais da “vida real”.

Tamba é o único personagem realizado em “Dodes’ka-den”, mesmo não sendo um samurai poderoso capaz de realizar façanhas sobre-humanas. Ele consegue colocar-se plenamente no lugar de seus vizinhos confusos e sofridos e essa capacidade faz dele o herói. Ele nunca julga as pessoas de seu mundo, mas aceita-as e socorre-as. Kurosawa revela que é fácil demais julgar pelas aparências. Somente as pessoas envolvidas numa dada experiência podem dar testemunho de sua natureza pois, muito frequentemente, as aparências enganam. As superfícies da realidade dizem muito pouco da complexidade da consciência.

Como em muitos filmes de Kurosawa, a interpretação é bastante estilizada. Seus personagens são percebidos exclusivamente em termos de suas paixões dominantes, um método que se adequa muito bem à visão do diretor da vida fragmentada e atordoada dos pobres. Kurosawa vê as fugas para a fantasia como heróicas e ao mesmo tempo desesperadas. O caráter lírico de “Dodes’ka-den” vem do respeito e da admiração de Kurosawa diante da capacidade humana de suportar dificuldades dessa grandeza enquanto encontra uma maneira de tirar prazer de alguns momentos passageiros.

Fazer do amor uma realidade é a condição para a sobrevivência e para a redenção qualquer que seja nossa situação e não importa quão rude a nossa vida. Esse tema aplica-se tanto aos atos morais dos heróis de seus primeiros filmes, quanto aos atos da consciência celebrados como um fim em si mesmos em “Dodes’ka-den”. Com personagens tão cercados de dor, Kurosawa não obstante resiste a qualquer queda de sentimentalismo. As cores vivas refletem em si mesmas a noção de que, mesmo para os mais aflitos, a vida vale a pena ser vivida. Mas as pessoas de “Dodes’ka-den”, apesar da abundante capacidade de fantasia, cada qual só consegue ver a perspectiva estreita de seus próprios empenhos (com exceção de Tamba). Essa incapacidade de ver além de nossa dor pessoal é a resposta que Kurosawa dá em “Dodes’ka-den” para a pergunta que permeia todos os seus filmes: “Por que as pessoas não podem ser mais felizes juntas?”.

A valorização da experiência pessoal do indivíduo, sua valorização em seus próprios termos, sempre foi uma característica central das melhores obras de Kurosawa. “Dodes’ka-den” conquista seu lugar entre essas na medida em que esse tema é fundamental também nele, mesmo que o diretor não tenha mais fé na nossa capacidade de ampliar nossa visão e a partir daí criar um mundo melhor.

(fonte: “Os Filmes de Kurosawa” de Donald Ritchie)

2. “O Barba Ruiva” (1965)

Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Masato Ide, Ryuzo Kikushima, Akira Kurosawa, Hideo Oguni
Dir. Fotografia: Asakazu Nakai, Takao Saitô
Elenco: Toshirô Mifune, Yuzo Kayama, Tsutomu Yamazaki, Reiko Dan, Miyuki Kuwano

Sinopse
“O Barba Ruiva” é considerado testemunho divino para humanidade. Esta é a história de um tumultuado relacionamento entre um médico jovem e arrogante e o piedoso diretor da clínica. Toshiro Mifune, em seu último filme com Kurosawa (Mifune e Kurosawa formaram a dupla de diretor-ator mais famosa de todo o cinema japonês), está em grande forma e impecável como o ilustre professor que ensina a seu amargurado médico residente a respeitar e apreciar as vidas de seus pacientes desamparados. Captando com perfeição o visual e sentimentos do Japão do Século XIX; esta obra é uma viagem no tempo, nos locais e na emoção.

Comentário do estudioso do cinema Stephen Price
Este filme sobre médicos trabalhando numa clínica pública do século XIX marca o final do período mais brilhante e prolífico de Kurosawa como diretor de cinema. é o seu último filme em preto e branco e a úlitma vez que trabalhou com Toshiro Mifune.

O filme foi um sucesso no Japão, porém tem sido subvalorizado no Ocidente. É um filme grandioso em que Kurosawa mostra pela última vez o tipo de herói, como o kambei de “Os Sete Samurais” e o Watanabe de “Viver”, que serviria como um exemplo a ser seguido, e a necessidade de ajudar os outros, elementos centrais de suas obras desde o final da década de 1940. Depois disso, não teria mais heróis em seus filmes e seu trabalho entra numa fase muito pessimista que durou durante as próximas duas décadas. Com “O Barba Ruiva”, Kurosawa encerra muito do que foi inspirador no seu cinema e só por essa razão o filme já mereceria uma atenção. Mas também é uma obra prima do cinema; o diretor estava trabalhando no auge de seus poderes e criou imagens e episódios que se aproximam do sublime. Isto inclui a cena do terremoto (Kurosawa testemunhou o terrível terrmoto de 1923 que arrasou a cidade de Tóquio) e as cenas do leito de morte dos dois pacientes da clínica, Sahachi e Rokusuke, filmados com mistério e um senso de majestade.
— Stephen Prince

Assim como o post anterior, resgatei o texto acima, que fazia parte de um projeto cultural que não foi realizado, em vez de deixá-lo engavetado.

2 Respostas para “Akira Kurosawa

  1. Pingback: Dodes’ka-den « Fernando Nogueira da Costa

  2. O seu filme “Sonhos” é tão somente realidade, mostra a estupidez das armas atômicas e a consequente aniquilação do meio ambiente. É um grito de alerta contra essa inutilidade da energia atômica, num mundo tão conturbado e de interesses capitalistas.

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