O Japão Pacifista

O Japão é o único país do mundo que viveu o horror da bomba atómica. Como japonesa, cresci ouvindo e lendo histórias sobre Hiroshima e Nagasaki, assim como outros episódios da 2ª Guerra Mundial, tanto na escola quanto em casa, na televisão e em muitas outras ocasiões. O apelo da geração que viveu essa guerra para que o povo japonês nunca se esqueça do que aconteceu era muito grande, principalmente direcionado a nós, crianças, as futuras gerações. Parecia que eles queriam impedir o que está prestes a acontecer agora, pouco mais de 60 anos depois daquelas tragédias. Após o 11 de setembro e a recente e crescente onda de ameaças bélicas vindas da Coréia do Norte, o governo japonês vem, com muito esforço, tentando reformar a constituição japonesa, uma constituição pacifista baseada na dignidade humana criada em 1946, um ano após o lançamento das duas bombas atômicas. A polêmica em torno da reforma está, obviamente, no capítulo 2 da Constituição, que consiste em um único artigo, o artigo 9º, intitulado “Da renúncia à guerra”:

1) Sinceramente aspirantes a uma paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo do Japão renuncia para sempre a guerra como um direito soberano da Nação e a ameaça ou uso da força como meio de resolução dos litígios internacionais.
2) A fim de concretizar o objetivo do parágrafo precedente, as forças terrestres, marítimas e aéreas, bem como qualquer outro potencial de guerra, nunca serão mantidos. O direito de beligerância do Estado não será reconhecido.

Mas o que sente e pensa a população japonesa? Muitos de nós que crescemos ouvindo essas histórias de nossos pais, avós e professores achamos que este artigo da Constituição é um tesouro a ser preservado e protegido, apesar da já existente força militar de autodefesa japonesa e a sua incursão na Guerra do Iraque. Somos muitos a nos opormos à reforma constitucional. Não queremos deixar de ser um país pacífico e portador da mensagem da renúncia à guerra como único caminho a ser seguido pela humanidade.

Essa minha convicção, tenho certeza que compartilhada por muitos japoneses da minha geração, deve muito ao “Hadashi no Gen (Gen – pés descalços)”, uma série de mangá (história em quadrinhos japonesa) que peguei emprestada da biblioteca da minha escola primária em Tokyo no comecinho dos anos 80. Foi na segunda metade dos meus estudos primários que li essa história, acompanhada de fortíssimas emoções, de muita raiva, de profunda tristeza, mas também de risos e alguma esperança. É a história autobiográfica de um menino de 7 anos de idade que vive o horror da bomba atômica e que, apesar de ter perdido o pai, uma irmã e um irmão e de conviver com a devastação física e espiritual causada pela bomba e a guerra, incluindo a discriminação, a falta de comida e a pobreza, segue sua vida com uma força e esperança inacreditáveis. Esta é uma obra prima popular japonesa de autoria de Keiji Nakazawa que deve ser lida por todos, de todas as gerações de todo o mundo, inclusive pelos líderes políticos que tomam decisões sobre nossas vidas. Decisões como instalar ou não uma usina nuclear.

Depois que saí do Japão e segui a minha vida adulta em países ocidentais, essas histórias gradualmente cessaram de fazer parte da minha vida e parece que depois que entramos no Século XXI, Hiroshima e Nagasaki começaram a parecer parte de um passado muito remoto. Enquanto tínhamos nossos avós a contarem, as histórias se mantinham vivas, mas ao passo que os integrantes daquela geração foram gradualmente falecendo, a paz e a riqueza material que o Japão conquistou podem ter anestesiado as memórias das “crianças que não conhecem a guerra (sensou wo shiranai kodomotachi)”.

Eu escrevi o texto acima em julho de 2009 como parte do projeto de um evento cultural, que não foi realizado. Reproduzo-o aqui, com algumas adaptações, nesse momento de profunda reflexão sobre a frágil segurança das usinas nucleares após o terremoto seguido de tsunami que danificou o complexo nuclear de Fukushima no nordeste do Japão.

4 Respostas para “O Japão Pacifista

  1. lindo texnto…
    with love & respect, your brother… André

  2. Olá Sachi,

    Bonito texto, realmente. Mas, com todo respeito, a ideia de abdicar a guerra, presente na Carta Magna do Japão desde 1946 foi imposta pelos EUA. Não foi uma decisão voluntária japonesa e só foi possível a criação de um ‘exército’ japonês algum tempo depois com o aval dos EUA. Os japoneses argumentaram que por mais que eles tivessem um ‘exército’ não implicaria em um desejo ou predisposição à guerra, mas o direito de se autodefender e uma dado momento. É claro que num mundo ideal, a existência de exército seria totalmente desnecessária, mas infelizmente não vivemos neste mundo. Não que eu não acredite na diplomacia e na paz, até porque na constituição do Brasil também diz algo parecido ‘defesa da paz’ e ‘solução pacífica dos conflitos’. Embora eu acredite na enorme capacidade japonesa em realmente ser um povo pacífico, porque o é.

    • Olá Dan. Sim, é verdade que a Constituição foi imposta pelos EUA seguindo os interesses americanos. Mas é irônico como essa imposição acabou sendo a melhor coisa que os EUA fizeram para o Japão.

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