A arquitetura da dissolução

O internacionalmente aclamado arquiteto japonês Kengo Kuma nasceu em Yokohama em 1954.

Kuma iniciou sua carreira independente com seu Estúdio de Design Espacial em 1987. Em 1990, fundou a atual Kengo Kuma & Associates que conta hoje com uma equipe de 75 profissionais em um escritório em Tokyo e outro em Paris.

É Mestre em Arquitetura pela Universidade de Tokyo (1979) e entre 1985 e 1986 foi pesquisador convidado pela Universidade Columbia e do Conselho de Cultura Asiática. Atualmente é professor da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Keio em Tokyo.

Kengo Kuma despontou como um dos mais significativos representantes da arquitetura japonesa da era pós-bolha econômica a partir dos meados dos anos 1990. Embora visivelmente contemporânea, sua arquitetura se baseia nos princípios da arquitetura tradicional japonesa. Destacamos como características a simplicidade volumétrica, a interpenetração dos espaços, composições estruturadas em linhas verticais e horizontais e, acima de tudo, a completa integração da construção dentro de seu meio ambiente. Ele se recusa a criar um “objeto arquitetônico” destacado do contexto. Em última análise, sua meta é a desmaterialização ou a dissolução da arquitetura. Nas palavras do próprio arquiteto, ele “gostaria de apagar a arquitetura”.

Lotus House

Lotus House

Em adição à arquitetura tradicional japonesa, suas influências incluem arquitetos modernistas do século XX como Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright. Este último que, por sua vez, amava profundamente a arte e a cultura japonesas e também recebeu certa influência da arquitetura tradicional daquele país.

Com a supressão da forma, o significado da materialidade toma uma importância suprema no trabalho de Kuma. Em contraste com os arquitetos japoneses de uma geração acima da dele como Tadao Ando, que fazem grande uso do concreto e do aço, Kengo Kuma prefere usar materiais como a madeira, a pedra, o bambu, o plástico e o papel.

The Plastic House - uma casa feita de plástico

The Plastic House - uma casa feita de plástico

Uma das mais sublimes características de seu trabalho está na maneira como transforma o material e a relação deste com a luz. Ao usar, por exemplo, a pedra ou a madeira como pequenas porém infinitamente repetitivas partículas, Kengo Kuma atinge o seu objetivo da dissolução do objeto. Com isso, consegue em sua arquitetura um efeito de transparência, quase que flutuando naquele ambiente. Kuma prefere usar o material de forma não usual, cortando-o, refilando-o, afinando-o, para depois multiplicar-lo infinitamente qual um mantra entoado no espaço. Com isso, cria-se uma nova textura daquele material, quase contraditória (como perceber um material como a pedra de maneira tão transparente, leve?). Nasce, daí, uma relação da luz com essa nova materialidade, relação essa que talvez seja até mesmo mais importante do que a própria construção em si, na concepção deste arquiteto. A arquitetura de Kengo Kuma quer transcender o mero objeto da construção, criando um lugar, um ambiente, uma nova maneira de se situar. É assim que ele faz a sua crítica à arquitetura impositiva da era da bolha econômica dos anos 80 e começo dos 90, que queria “auto-existir” sem qualquer consideração com o que a cerca.

Hiroshige Museum

Hiroshige Museum

É inevitável a associação do trabalho deste arquiteto com o Zen, uma filosofia que originou na China, mas que, desde que chegou no Japão no século VI contida na religião budista, ficou profundamente enraizada na cultura e na vida dos japoneses, mesmo que separada da própria religião. Mas é preciso ter cautela com a análise, pois as aparentes quietude e serenidade não são o que conduz a essa associação, pois estas são apenas a consequência manifesta do verdadeiro significado do Zen, a saber, “enxergar a essência de todas as coisas”.

The Great Bamboo Wall - uma casa de campo construída perto da Grande Muralha da China

The Great Bamboo Wall - uma casa de campo construída perto da Grande Muralha da China

Kengo Kuma pensa que a arquitetura de hoje se tornou demasiadamente “globalizada”, resultando numa pasteurização da mesma. Como reflexo e crítica desse pensamento, ele faz grande uso de material autóctone. Esta é a sua maneira de fazer uma arquitetura que se misture com o local em questão. Para ele, tão importante quanto o trabalho feito na prancheta é a pesquisa dos materiais orgânicos e inorgânicos que compõem o local. Mais uma vez, ele sempre encontra meios inovadores de utilização desses materiais, conseguindo assim unir o tradicionalmente local com o contemporâneo. Sabedoria artesanal ancestral da construção japonesa com a tecnologia do século XXI.

Chokkura Hiroba - construção feita com pedras autóctones

Chokkura Hiroba - construção feita com pedras autóctones

Além de sua frenética atividade a frente de seu estúdio de arquitetura, a Kengo Kuma & Associates, Kuma se dedica também às atividades de escritor. É autor de diversos livros sobre a teoria e a filosofia de sua arquitetura, dentre eles o famoso “Makeru Kenchiku”. A tradução deste título seria algo como “A Arquitetura do Ceder”.  Este é o grande pilar de seu pensamento. “Makeru”, ceder. Ceder à natureza. Ceder ao meio-ambiente. Ceder à sociedade que vai acolher aquela construção. Ceder à pessoa que vai habitar aquela arquitetura. Ceder às limitações encontradas no caminho. Kengo Kuma diz que jamais conseguiria fazer um trabalho que não tivesse nenhuma limitação, seja ela de natureza financeira, material, ou geográfica, pois na limitação é que ele encontra a criatividade e consequentemente a sua originalidade.

“Makeru Kenchiku”

“Makeru Kenchiku”

Kengo Kuma participou de inúmeras exposições coletivas e individuais. Dentre elas, podemos destacar a sua recente participação da exposição TOKYO FIBER ‘09 SENSEWARE que reúne profissionais de diversas áreas que trabalharam com materiais tecnológicos usando a fibra ótica. Kengo Kuma apresentou um pavilhão na Trienal de Milão construído com blocos de concreto translúcido que transpassa luz. (“This pavilion is built with blocks made of translucent concrete produced by Luccon manufactured embedding layers of optic fiber meshes.The shape of this cake-slice cut blocks has the aim to increase the surface of the interior face so that the light received by the exterior face is expanded by 1.8 times when brought towards the inside. The piled up blocks appears as a three-dimensional pattern bathed with light and images.” )

concreto translúcido

concreto translúcido

Alguns videos de conferências e entrevistas com Kengo Kuma:





E por último, esse trabalho dele que acho excepcional. É uma casa especialmente feita para a cerimônia do chá japonesa. O estilo e o material são inovadores, mas este tipo de construção para a cerimônia do chá é tradicional no Japão, é chamado de tchashitsu e tem suas próprias regras de construção, como a altura da janela mais baixa, entrada pequena, etc. Em geral é construído dentro de um jardim japonês.

Tea House

Tea House

interior da Tea House

interior da Tea House

2 Respostas para “A arquitetura da dissolução

  1. Amada, que texto incrível falando de arquitetura, que continua sendo minha paixão. Quando eu estudava meus projetos foram muito imfluenciados pela Lina Bo Bardi e pelo Tadao Ando. Mas se fosse agora, com as experiências que tive com bio arquitetura, Kengo seria minha referencia.

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