Bitches Brew

Faz pouco tempo, entrei numa loja de disco determinada a comprar Miles Davis. Eu tinha apenas um álbum dele, o “Kind of Blue” e não me conformava com o fato de eu conhecer tão pouco a música dele. Não só pelo nome. Ele sempre me instigou, com seu carisma e sua estética visual, sabia que ele era um ser muito especial. Daí, na loja, primeiro escolhi “In a Silent Way”. Escutei naquele equipamento da loja onde dá pra ouvir uns trechos do CD e reconheci uma música que o Carl Craig tocou no começo de um set dele, um set incrível aliás, acho que era o DEMF (Detroit Electronic Music Festival) 2006. Falei “nossa… eu tinha que passar por Detroit pra chegar no Miles Davis… preciso comprar esse”. E o outro que escolhi foi o “Bitches Brew”. Vi a capa e fiquei passada. Ouvi os trechinhos no equipamento e fiquei mais passada ainda. Falei, o que é isso? Isso é muito complexo. Preciso ouvir o resto dessa complexidade. Levei os dois pra casa, sem saber que um era o prenúncio do outro.

a capa de "Bitches Brew"

a capa incrível de "Bitches Brew" - ilustração de Abdul Mati Klarwein

Não é muito absurda essa capa? Quando vi a frente, eu achei incrível e inclusive lembrei dela, ela é bem famosa e já tinha visto antes, há muito tempo atrás, tinha ficado no meu inconsciente. Mas quando vi a contra capa, a parte que fica dentro do CD, passei mal. É muito absurda a ilustração toda, me trouxe muitas sensações ao mesmo tempo. É muito yin e yang, energia criativa, terra, algo sereno e ao mesmo tempo emocional, e sobretudo, muito espiritual.

Bom, ao ouvir o CD, confirmou a sensação que tinha me trazido a ilustração da capa. Aquela complexidade toda só podia ser algo que nasceu da união do mais espiritual com o mais humano, terrestre. É difícil falar sobre, porque é uma música extremamente complexa e extremamente tocante. Tem que mergulhar dentro e só sentir. Não existe gênero, regra, limite, nada. É só expressão sonora sublime. Não consigo nem pensar no nome que deram a esse gênero musical, jazz-rock ou fusion.

Esse disco foi gravado em 1969 e lançado em 1970 (ano em que eu nasci :)). Entendo que aquilo deve ter chocado o mundo do jazz e inclusive de todo o universo musical. Por isso, tinham que dar um nome a algo totalmente novo que nascia. “Bitches Brew” não era o primeiro disco de um músico de jazz com elementos do rock incorporados, como os instrumentos elétricos e uma certa dose de agressividade, mas certamente foi o que mais experimentou nessa direção e mais visibilidade teve, por sua extrema vanguarda, acho. Diz que o Miles ouvia muito rock e funk na época que fez esse disco e admirava profundamente Jimi Hendrix. Parece que tinha até planos em chamá-lo para uma colaboração, mas a morte prematura de Hendrix veio antes.

Foram 3 dias de gravação em estúdio (19, 20 e 21 de agosto). Miles convocou uma legião de top músicos da época (Wayne Shorter, Chick Corea, Herbie Hancock, Harvey Brooks, Joe Zawinul, John MacLaughlin, Jack DeJonhnette, Dave Holland e outros) bem de última hora, sem dizer a eles muito do que se tratava. Foram 3 dias de improvisação e experimentação regidas pelo Miles, onde Teo Macero, o produtor, gravou tudo o que acontecia lá para depois usar e abusar das técnicas de edição como colagens de loops e efeitos especiais de echo, etc.

Na versão original do álbum, o tracklist era esse:

Lado 1

1. Pharaoh’s Dance – 20:06

Lado 2

1. Bitches Brew – 27:00

Lado 3

1. Spanish Key – 17:34
2. John McLaughlin – 4:26

Lado 4

1. Miles Runs the Voodoo Down – 14:04
2. Sanctuary – 11:01


A versão do CD ganhou mais uma faixa, “Feio”. Que eu amei, por sinal. Tem uma atmosfera obscura de mistério que me fez pensar numa rua deserta em noite de lua cheia, com cachorros vagando. Talvez por causa do som da cuíca que no início pensei que fosse uns latidos de cachorro mesmo. Quando percebi que era cuíca, fiquei passada porque é muito inusitado. Depois descobri que Airto Moreira participou dessa faixa tocando cuíca, berimbau e percussão.

Acho que ainda vão ser muitas descobertas e muitas sensações novas, toda vez que eu ouvir esse disco. Foi em “In a Silent Way”, que eu comprei junto com “Bitches Brew”, que Miles iniciou as experimentações com esse approach mais moderno, com instrumentos elétricos e incorporações de elementos do funk e do rock, se bem que acho bem mais para o funk que para o rock, nesse caso. É maravilhoso também, mais contido e mais melódico do que “Bitches Brew”, mas igualmente genial. Sem Miles, não teria nem house nem techno de Detroit, com certeza. Pelo menos música não seria como é hoje, se não existisse “In a Silent Way” e consequentemente “Bitches Brew”.

capa do "In a Silent Way"

capa do "In a Silent Way"

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